quinta-feira, julho 07, 2005

foi contigo que encontrei o caminho

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não sabes ver ou sentir
no quieto silêncio

sei quem és, onde pertences

sorrio-te, em dias de luz ou nevoeiro
e nas noites repetidas sem astros

contigo partilho solidão,
alegrias de viver,
momentos de tristeza ou paixão

invento definições
certas ou adversas
és um amigo confidente,
o brilho que busco na ausência

tens o mar por companhia,
ajudas aflitos
indicas caminhos
sabes fazê-lo com ciência
entre segredos teus

queres que te diga mais?
és o meu sorriso.

estarás comigo,
em lembranças
entre os muros do abismo

obstinada linha
entre o tempo e o espaço
meu farol!

luz que ilumina o amanhecer
naufragada de ilusão
em dias sem sol


a ti não direi "adeus"


l.maltez

domingo, julho 03, 2005

acordei com o cheiro da tua manhã

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o dia amanheceu devagar
com o nascer do sol
absorvido por frígidas ilusões

um cheiro a pó,
chegava até à janela escancarada
trazido pela monotonia do vento morno
despedaçado contra o silêncio
que abraçava cidade

a cor azul brilhou
num espreguiçar sonâmbulo de um corpo
enrolado em tons de pele perdida
por entre traços
em lençóis suaves como seda

no quarto fechado a sensações
uma chave abre a porta certa
do fim de uma esperança perdida
com o beijo pousado levemente

o teu!


l.maltez

terça-feira, junho 21, 2005

beijo em tons prateados como o abraço tremeluzente da lua ao mar

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os meus lábios apenas dormem
voando no sonho
voando no caminho
rasgam-se de mim
e vão de encontro aos teus

Enchem-se de ternura e de calor
vão carregados de amor
sem paixões assolapadas e finitas
levam um desejo...

o calor do meu corpo agarrado ao teu


l.maltez

sexta-feira, junho 10, 2005

arrasto-me até ti mar e atravesso contigo os caminhos da minha vida

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a ti João Rodigues fica um agradecimento especial num beijo meu por me trazeres a tua praia até mim

uni palavras num secreto sonho perdida nas vozes do mar e em silêncio lembrei-me de ti ao acordar

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O Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, maio 20, 2005

tantas noites de espera no mar imenso

mulher222.jpg

mar que cortas o silêncio
nos dias que amanhecem em sobressalto


rasgas imagens do passado
que renascem numa lua fraudulenta


trazes sobressaltos cobertos de penumbra
onde as vozes são devoradas pelo tempo


olhares cansados
corpos indolentes
pálidos


e
longe do pavor
escrevo na certeza
que tudo se esvairá
no instante de largar amarras
e zarpar


malicioso mar que me atormentas



l.maltez

sábado, maio 14, 2005

um trabalho de casa que não estava habituada

livro11.jpg


Cadeia Literária :

recebi da {{coral}} um pedido para continuar esta cadeia literária.obrigada pela confiança, embora eu não seja muito dada a inquéritos vou tentar responder, desculpa ter sido tão tarde, mas o meu blog anda sempre muito atrasado



1. Não podendo sair de Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

penso que nenhum, o que é meu é muito meu , e deixar queimar um não conseguia, não faz parte da minha maneira de ser

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por uma personagem de ficção?
e não , é mesmo ficção, termina quando acaba

3. Qual foi o último livro que compraste?
Anjos e Demónios de Dan Brown, estou a gostar de o ler


4. Qual foi o último livro que leste?
Código Da Vinci também de Dan Brown

5. Que livros estás a ler?
Anjos e Demónios de Dan Brown, leio devagar, muito devagar, claro também de poesia A Estrada Branca de
José Tolentino Mendonça

6.Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Certamente de poesia e escolhia alguns poetas que me preenchem como Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, José Tolentino Mendonça,entre outros

7. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?

deixo ao critério de quem por aqui passar e quiser dar continuidade a esta cadeia literária


Um obrigado a ti {{coral}}, por confiares em mim em algo que me responsabiliza, afinal não foi assim tão dificil, fica um beijo meu para ti

terça-feira, maio 10, 2005

um sonho, uma espera, um momento, uma vida, um silêncio …

sapatos2.jpg

deixa o meu sonho espraiar-se
e senta-te um pouco a meu lado

deixa que adormeça no teu abraço
quando a noite avançar.

persistirei a olhar para ti
mesmo perdida em sonhos

dormindo ou acordada
serás constantemente o meu abrigo

vejo no teu olhar o horizonte
vejo o mar imenso,
solitário

sinto uma dor quase letal
e temo o silêncio duma culpa.

procuro a tua boca
os teus beijos e carícias

esta cama chama por ti
para nos reinventar num só


l.maltez

sexta-feira, abril 29, 2005

em busca de um raio de sol

numa soma de palavras
por muitas eternidades
tantas como versos
por escrever

cruel o encontro
de um tempo frágil
desprezado pela curiosidade

abandono recusado
num estado de loucura

dois22.jpg

certezas pintadas
em melodias
atravessadas pela noite
bordadas de emoção

um rigor altivo
com autenticidade
na solidez exacerbada
de um credo

um tu e um eu
banhados em raios de luz


l.maltez

segunda-feira, abril 25, 2005

no fulgor da tristeza a força da memória deu alma ao corpo

mulher12.jpg


nada me ocorre dizer
perdida na sombra
busquei um rosto
uma imagem
até uma mão
tua
estranho vazio
procurei uma saída
indiferente ao fascínio
e à vida


l.maltez

domingo, abril 24, 2005

a minha paleta de cores onde a realidade tem palavras pintadas por mim

linda.jpg

tirei a pétala branca
ao malmequer amarelo
pintei um sol verde
num céu dourado
onde nasce uma lua
envolta num véu prata
o mar ondulou
em espuma azul
onde os peixes tangerina
bailam
ao som das estrelas
e eu...
gostava de me chamar van Gogh


l.maltez

terça-feira, março 22, 2005

escuto o cantar do vento





louco o vento
no sopro vibrante da melodia


cantou agitado
bailou nas folhas outonais


sóbrio
impertinente
flutuou nos sonhos


despertou preguiçoso
no jejum do dia
saudando a branca manhã


sem peso renova-se
sem medos, sem sustos
sopra no coração

poderoso e livre
torna a doce brisa amarga


engana de frente ou pelas costas
em gritos esfumados
arrasa cruel sem se deter


quebra pela força
a beleza da vida presente



l.maltez

segunda-feira, março 21, 2005

21 de Março - por ser hoje o dia mundial da poesia, foi de ti que me lembrei com uma grande saudade

torreira9vn.jpg

Mar


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.


E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, março 20, 2005

é em ti venho ver o que jamais se viu

gaivota.JPG


bebi-te mar
embriaguei-me de maresia.


neste corpo, a ondulação
da tua cor rara


alcancei-te sorrindo,
no soltar do dia
afixei-te na alma


a espuma rebenta
em ondas de prazer
.
queria bailar como as gaivotas



l.maltez

mergulho secretamente no segredo da existência

deep.JPG


existo
nas vozes frias

na verdade escangalhada no cruzamento de linhas

nas mãos disponíveis

nos rostos recolhidos das noites

existo

num canto inacessível

entre labirintos perigosos

nos ruídos da cidade

existo

num papel molestado e cru



l.maltez

sábado, março 12, 2005

sem me desfazer procuro escutar o silêncio

caminhando12.JPG

chego em silêncio
sinto o sol nas veias.


uma brisa lava o meu rosto
tenho sede de mar.


deito-me na areia
naquela frescura azul.


caminho em palavras
ligada ao mar e ao sol.


o dia é um vazio entre os espaços
fico indecisa e ardente.


sinto-me perdida entre os ventos
ouço vozes na penumbra desse vazio.


sei o que amo
e amo num abandono total.


sou alguém que espera,
a que pergunta e responde.


uma esperança impossível,


a que caminha no repouso
do seu próprio silêncio.
o meu.



l.maltez

quinta-feira, março 10, 2005

em silêncio entro no sonho

mulher so212.JPG


busquei
a felicidade perdida


descobria-a escondida
na perturbação da noite


senti um arrepio
na pele fria e luminosa


busquei um lugar
onde se vive sem dor
na claridade dum mar
num horizonte com estrelas


sim,
onde o silêncio fosse a saudade dos sonhos


por fim retirei-me


fui amada
e odiada
na fatalidade dos dias


e esquecida
na força da vida



l.maltez

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

guardo na alma com clareza o sonho

perdida em sonhos

deixa o meu sonho espraiar-se
e senta-te um pouco a meu lado

deixa que adormeça no teu abraço
quando a noite avançar.

persistirei a olhar para ti
mesmo perdida em sonhos

dormindo ou acordada
serás constantemente o meu abrigo

vejo no teu olhar o horizonte
vejo o mar imenso,
solitário

sinto uma dor quase letal
e temo o silêncio duma culpa.

procuro a tua boca
os teus beijos e carícias

esta cama chama por ti
para nos reinventar num só



l.maltez

terça-feira, fevereiro 08, 2005

perdido no sussurrar das suas mãos

no murmúrio de um dia cheio de rostos

morrer lentamente
encostado às manhãs frias


com cheiro pestífero de corpos humedecidos
pelos fumos das noites ardidas


os ruídos entram pelas frinchas
e raspam as paredes macilentas
do quarto tíbio


sinuosas sombras bailam no silêncio
alteradas pelo ensejo


só, assumidamente
parei na fria manhã de qualquer lugar
expulsa de saudades


o rapaz que atravessa a rua
ausente das horas leves
mergulha no tempo vazio, sem nexo
como se carregasse o peso do dia


a respiração arrasta-se
pelas esquinas
num regresso ao isolamento


uma voz embalada enegrece na manhã



l.maltez

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

segunda-feira, janeiro 31, 2005

no balouçar da melancolia encontrou o homem a certeza para um voo frenético

entre abraços na sombra das paredes dorme o mar da cidade

a cidade cresceu nas ruas perpendiculares,
nítida
de horas encontradas


dentro de sons
encolhidos na magia da noite


na solidão o homem sonegou as palavras
amontoadas


desceu fantasiando os passos até
chegar ao último degrau da
cidade


de olhar ácido, explorou hesitante
os barulhos do dia


ventos, o restolhar das folhas
gemidos secos, disfarçados


frequentemente, corre sobre si
cansado do canto passado


pérfido na justiça,
remarcado sobre a ausência
dos caminhos de sombra


na cidade, ao fundo
o mar
em projectos quebrados


o homem envelhece duma idade
sem sinais
seduzido pelo mar


sente correr
a suja cidade
resvalando no corpo


a noite toca, violento
despede-se.


l.maltez

sábado, janeiro 22, 2005

sacudi as mãos da poeira do tempo

tenho as mãos impregnadas
do teu perfume

perdi-me de ti,
numa manhã esquecida

piso as ruas atravessadas
ténue nos meus passos

no corpo, fica a saudade
em cada poro

juntei os sonhos
que ficaram calados
nas madrugadas dissolvidas

as horas, essas correm nos dias
onde as cores são proibidas

grito segredos terríveis ao vento,
cansando o corpo
que se desfaz

no leito repousam as desilusões

onde estás?

sinto-te dentro de mim
mas muito longe de ti


l.maltez
é possível construir com as mãos a perfeição?

domingo, janeiro 16, 2005

nasci dentro de um sonho, onde o tempo era um quadro de imagens cheias de luz

o tempo sem aparêcia visível

nasci no tempo,
o mesmo que me virá buscar

um tempo onde o tudo é nada
sempre igual, ao que deixou de ser

anelante de emoções,
no rumo da perfeição

no tempo
cruzei-me com o vento

entrou enfurecido,
seco, forçando rumos

apaguei as dúvidas corrompidas

onde o principio era a noite
que como sempre,
desaparece

perdi palavras, sem peso
nuas, assombradas e secas

a rua era húmida
estranha, impertinente na desordem

não deixei fossilizar o tempo,
regresso no amanhecer da claridade
de um sol que nasce

tempero o dia com o céu que cresce.


l.maltez

sábado, janeiro 08, 2005

o que será feito de ti? será que vives ainda a meu lado?

estrela do mar

vi-te estrela
encontrei-te a meus pés

eras estrela do mar
com cinco pontas de sal
não tinhas cor azul
o azul do céu ou do verde mar

sem luz,
frágil e fria,
branca cinza
peguei-te da maneira mais meiga
e próxima de mim chamei-te paixão

o sol escaldava
sufocava ao respirar
escutava o mar e o vento
transparente naquele calor ardente

perdi-me no tempo,
no silêncio entre mim,
a estrela e o mar

devagar a escuridão desceu inquieta
era tempo de voltar
de disfarçar calada
dores distorcidas

abracei-te de novo com meiguice

e chamei-te paixão

o ar ficou mais doce
fez-me sorrir de alegria
era urgente descobrir loucuras de emoção

em silêncio sobre ela adormeci


l.maltez

fiz de ti a minha "roupa-velha"



terminou um ano, velho, cansado, antigo. como se fosse uma colina do instante,
cheio de tristezas e alegrias, cheio de pressas e frenesins. terminou!
deitei fora a “roupa-velha” vesti-me de novo e entrei no cantar do relógio das doze badaladas, com o meu cheiro a maresia, pois quero mudar, mudar principalmente de mim.

onda - l.maltez

terça-feira, dezembro 21, 2004

despedaçam os lugares onde se escuta o silêncio

de asas transparentes e voar no pensamento

disse sim
à vida ainda no ventre de minha mãe
um sim
quando tentei falar
sim,
quando as regras me impunham a chorar
um sim
ao meu primeiro beijo
tantos sins pela vida fora
às ilusões,
desilusões
aos mistérios,
aos prazeres
sim
ao fascínio e ao sonho
à imagem verdadeira do amor
às horas de incerteza
sim
aos queixumes
e lamentos da noite
às lágrimas que
teimavam em cair sem beleza


talvez noutro momento,
noutra lembrança
de poder
o meu pensamento
na calma de uma liberdade já passada
em qualquer altura,
mesmo agonizada,
conseguisse dizer não
não ao obsessivo
poeirento caminho
não ao hábito
da noite
não à dor
de infortúnios
não no momento
de nascer


onda

segunda-feira, dezembro 20, 2004

respiro mergulhando o meu olhar em ti

em cada silêncio mergulha a palavra

aqui

junto à praia fundi palavras
os olhos, esses transformaram-se
adquiriram o brilho da cor da madrugada,

o sol partiu,
evaporou-se entre nuvens cinzentas
deixou sombras de um tempo passado,
ficou só o barulho das aves em grupos,

respiro em silêncio o cheiro do mar
anoiteceu mais cedo
a lua brilha tanto como o sol

aqui deixo-me ficar
numa amarga memória de inspiração alheia
imaginando ouvir palavras que esperei

tenho como companhia a noite
que me persegue e assusta,

já nada possuo em mim
amanheceu,
prendi-me ao esquecimento
por tanto amar


espero o dia que sobrevirá ao outro


onda

quarta-feira, dezembro 08, 2004

este é o vento que chega correndo em seus cantos

louco o vento
no sopro vibrante da melodia


cantou agitado
bailou nas folhas outonais


sóbrio
impertinente
flutuou nos sonhos


despertou preguiçoso
no jejum do dia
saudando a branca manhã


sem peso renovasse
confunde os melhores.


poderoso e livre
torna a doce brisa amarga


engana de frente ou pelas costas
em gritos esfumados
arrasa cruel sem se deter


quebra pela força
a beleza da vida presente



onda
vento ruges na terra, sopras e chegas obscuro, cantando a tua canção

domingo, novembro 07, 2004

encolho-me na janela onde desvendo o tempo

diluída na chuva

a chuva caiu

olhei
vi cair a chuva
ocultei a solidão do tempo

os olhos
fecho-os
e
imagino a chuva
assim miudinha caindo de raiva

imagino sorrisos no teu rosto
entre o sabor de beijos molhados

abrigo-me de ti
ou
de mim nem sei

penso que renasci nesses dias vagos
como em tantos outros dias
onde pensei que morri nas noites inventadas de nada
e que o nada era teu rosto
surgindo na passagem do nevoeiro

nada mais importa

que seja chuva ou nevoeiro,
o vento ou a madrugada,

que seja a infindável noite
ou um soluço diluído em poeiras

no tempo
quero que algo te traga


onda

quinta-feira, novembro 04, 2004

resta-me uma recordação de um silêncio

Claridade dada pelo tempo

Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
poesia
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
. . .
Mário-Henrique Leiria


quando acabava sempre a mesma reacção:

<@the_sad_punk> lol
<@the_sad_punk> :)))))))
< 03onda > *~
<@the_sad_punk> *********

no isolamento da minha memória vou guardar-te e do lado de lá vejo-te envolto no prazer de leres

um dia no mesmo espaço onde tantas vez deslizaram palavras, vi-te pela última vez:

Session Start: Sat Oct 30 10:54:43 2004
Session Ident: #poesia
[10:54] [10:54] * Entrou no canal #poesia
[10:54] * Topic is '---> http://canaldepoesia.blogspot.com/ <--- mais uma crónica de outono '
[10:54] * Set by do-mundo on Fri Oct 29 13:35:20

nesse dia foram somando as horas sem tempo, numa intensidade de poemas ou textos e vi-te chegar à mesma janela onde muitos anos partilhamos juntos tantos momentos

[14:41] [14:41] * Entrou : the_sad_punk (K-nabis@127.137.245.28)
[14:41] * ChanServ sets mode: +o the_sad_punk

minutos mais tarde sem um sinal vi-te sair

[14:47] * Saiu : the_sad_punk (K-nabis@127.137.245.28)

e o comecei a escutar o silêncio.

agora abro diariamente a janela e aceno-te, mas tu já não me podes ver, escrevo palavras no espaço, olho e sinto um imenso vazio

onda

sábado, outubro 30, 2004

agitou-se a noite e aqueceu o dia

veio o dia sem idade arrasando sem cor
os movimentos dos dedos

da janela
uma única estrela na profunda escuridão

o frio trai sorvido nas sombras

espírito e alma
misturam-se no sal da vida

a noite traz um sopro árido
cheio de rumores em marés invisíveis

o mar arrastasse terno e doce
embriagado em mistérios
branco e
nobre

realçam sentimentos

sente-se o cheiro
dum desejo

o de amar


onda

domingo, outubro 17, 2004

a emoção ficou trancada

encontrei uma esquina de janela e vagueei

abri janelas às certezas

entraram sem condições

vieram sem imagem,

reflectiam justiça

pouco a pouco
ecoavam vozes
confusas

e tudo irrompia

não se distinguia o brilho do dia
ou a escuridão da noite

tentaram atravessar a vida

metade visível,
mas sem memória

outra metade
densa e insaciada

trouxeram a realidade e o bom senso

juntaram emoções

desejos

carácter
segurança,
palavras difusas

fechou-se a janela

fui ao encontro do esquecimento

deixei partir as certezas

isolei as recordações

voltei costas à realidade visível
ao fundo
a janela abre-se

onda

segunda-feira, outubro 04, 2004

a magia em cada movimento pelo grito da razão

Caboclo Roceiro

Caboclo Roceiro, das plaga do Norte
Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o meu pranto me ponho a chorar

Ninguém te oferece um feliz lenitivo
És rude e cativo, não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.
Teu braço é a mola que move a cidade

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça de enxada na mão
Julgando que Deus é um pai vingativo,
Não vês o motivo da tua opressão

Tu pensas, amigo, que a vida que levas
De dores e trevas debaixo da cruz
E as crides constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus

Tu és nesta vida o fiel penitente
Um pobre inocente no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença
A tua sentença não parte do céu.

O mestre divino que é sábio profundo
Não faz neste mundo teu fardo infeliz
As tuas desgraças com tua desordem
Não nascem das ordens do eterno juiz

A lua se apaga sem ter empecilho,
O sol do seu brilho jamais te negou
Porém os ingratos, com ódio e com guerra,
Tomaram-te a terra que Deus te entregou

De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça , de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar , sem abrigo,
Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

Patativa do Assaré


domingo, outubro 03, 2004

terça-feira, setembro 21, 2004

no silêncio liberto o grito sufocado no desespero invisível da natureza


Imagem de Edvard Munch

o grito


Nasceu em mim o grito
esmagado
calado
num desabafar moribundo de amor
despertou profundo e partiu
sumiu
na pressa levou com ele
um sorriso constante
pensamentos trancados no peito
a luz
de uns olhos
os meus
que exprimem quando não consigo falar
fiz seguir o destino sem rumo
parei o tempo
num sopro
com rotas traçadas
invisiveis
num céu branco
como espuma,
sem um lamento
fatigada, presa no tempo das nuvens
vencida por sentimentos
e num gemido amargo
quis sair
da preguiça de me sentir vencida
provar a água
que me lava e acaricia
saber sentir
sem me apagar
dentro de ti


onda

domingo, setembro 19, 2004

escuro lamento da noite onde se escuta o uivar do vento



na noite tétrica
vi sombras

vazias

caladas

fechadas

chuva ácida, num miudinho chuvisco

solidão oprimida
de tanto resgatada,

momentos eternos de adiamentos
em sonhos livres e desnudados

linhas de um rosto
entrelaçadas
na brisa de um desejo,

um nunca
presente,

o bater da cabeça
de raiva
nas palavras injustas,

a indiferença
que corre em veias grossas,

vi
desprezo
indiferença injustiçada

dizer não
à fúria de estar

por querer ser o prazer saciado


onda
com palavras abres a porta à noite e transformas-te numa sombra lenta

entropecida nos segredos da voz do mar




bebo o silêncio
saboreio o vento,

sacio a fome com a saudade
respiro o mel da fruta

a ausência é uma forma de vida,
baloiço em palavras

em gestos e vozes
com o mar me perfumo

de flores construo um mundo
onde combato o terror e o medo.

atravesso a noite cinzenta,
como um barco sem rumo

exausta sucumbo lentamente
em imagens desfocadas

entro dentro dos sonhos
onde o amor se revela
em movimentos belos e luminosos

perco-me no sono, perto de um coração
que não consegue tocar-me.

extingo-me nas memórias do tempo
ao longo da costa verde e espessa,
tocada por águas translúcidas

é tarde,
diluí-me no sulco da maré


onda

quinta-feira, setembro 09, 2004

um lugar que pinto na imaginação
imagem

atravessei caminhos na vida
numa obscuridade total

o frio foi meu companheiro
além das sombras e solidão

o rosto não o reconhecia
a imagem foi apagada pelo tempo

algumas traziam consigo a dor

tento lembrar-me dos risos
das árvores verdejantes
do cheiro das flores do campo
dos risos de felicidade,

desperta em mim a alegria,
a saudade é dura

vejo rostos sem lhes saber o nome
rostos desconhecidos

sigo o caminho como se fosse uma ordem
quero voltar atrás
como se alguém me chamasse

olho de quando em vez
apresso o passo na noite

desvio o olhar
nada do que procuro me transforma
ou me traz de volta o que procuro

encosto-me, fecho os olhos
e cansada reconheço uma voz

respondo-te e regresso.


onda

quarta-feira, setembro 08, 2004

lua transparente onde me prendo sem condições



isolo a noite
da lua transparente

desafio a penumbra
caminho suspensa na noite
largando o esquecimento
na chuva, intensa e fria

passo a passo
desvendo os gestos
entorpecidos pelo desgaste,
entro nos sonhos invisíveis da voz do mar

num vento ofegante
sem regresso
chega até mim o ruído das ondas
numa obsessão sonâmbula

gemidos desprendidos,
nos fluxos de uma hipótese de amor
onde me anuncio
em palavras sem cor


onda

segunda-feira, setembro 06, 2004

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello nasceu em 06.09.1904, no Porto



O Bailador de Fandango

Sua canção fora a Gota.
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe "o fandangueiro".
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava...
Não era nome de cravo
Nem era nome de rosa;
Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?
(Nem sei que nome lhe dar...)

Tinha seus braços erguidos
Não sei que ignotos sentidos...
- Jeitos de asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
Que se esfolhava, esfolhava...


Domingos Enes Pereira,
Do lugar de Montedor,
(O bailador de Fandango
Era aquele bailador!)
Vinham moças de Areosa
Para com ele bailar...
E vinham moças de Afife
Para com ele bailar.
Então as sombras dos corpos,
Como chamas traiçoeiras,
Entrelaçavam-se e a dança
Cobria o chão de fogueiras...


E as sombras formavam sebe...
O movimento as florira...
O sonho, a noite, o desejo...
Ai! belezas da mentira!


E as sombras entrelaçavam-se...
Os corpos, ninguém sabia
Se eram corpos, se eram sombras,
Se era o amor que se escondia..


Pedro Homem de Melo
Pecado, Líricas Portuguesas

em predra exausta no encontro da noite



fui pedra
em manhã de frio.


estrela
nos caminhos da infância


verão quente
em arbustos de fogo


frescura
num instante inocente


fui obra
na inteligência humana


lâmpada
duma paixão adormecida


infinito
em certas horas


teoria
de palavras ardidas


fui sonho
de uma loucura com sol



onda



domingo, setembro 05, 2004

arrasto as palavas que fazem eco na alma



desapareço por entre o fumo ....
a névoa que me cega
a onda que me arrasta
o mar salgado
com manchas de sangue verde
um cheiro a maresia
num vento que bate leve
arrastando a corrente
levando as tristezas da vida
os dias mal passados
amenizemos a palavra amor
de momentos inquietos
mas duma lucidez irreversível
entre imagens reflectidas
de um adeus sempre adiado
com palavras enlouquecidas
gritos loucos e roucos
sombras tremidas e frias
percorrem a casa vazia
num rumor longínquo
que atravessa vales rios e colinas
num sopro suave da noite
onde a madrugada se anuncia
num cansaço de memórias

onda - um improviso com alguém

volto a fundir-me inclinada em cada dia que amanhece



4

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

Daniel Faria
Do inesgotável
Dos Líquidos

sexta-feira, setembro 03, 2004

acenava ao vento com palavras que se soltavam dos dedos



Agarrei o Mundo entre os dedos da mão...
Gritei-lhe bem alto a dor da desilusão!


Pintei-o como se fosse um arco-íris...
Tirei-lhe a guerra, a fome, as amarguras da vida!


Gritei-lhe o desespero do frio
da dor, da destruição e revolta!


Tentei ensinar-lhe a usar
o verbo amar e pensar...


Mergulhei-o no abismo
Entre passos incertos.


Em pedaços de gente
Pedi-lhe o momento...


E por um instante o mundo parou


onda

  abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...